Para onde foram os R$ 3 bi das SCPs da Fictor: parte do dinheiro segue fora do alcance de credores

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22/04/2026Referências
Para onde foram os R$ 3 bi das SCPs da Fictor: parte do dinheiro segue fora do alcance de credores

Para os mais de 13 mil credores que investiram em Sociedades em Conta de Participação (SCP) da Fictor sob a promessa de rendimentos mensais fixos entre 2% e 3% e não conseguiram resgatar seu dinheiro, a recuperação desse capital esbarra no possível desvio de finalidade dos aportes. O grupo alegou à Justiça ter captado cerca de R$ 3 bilhões por meio desses veículos, com o compromisso contratual de alocar os recursos nos negócios que dizia desenvolver, como indústria alimentícia, negócios agrícolas, setor imobiliário e energia.


Com menos de R$ 90 mil em caixa antes de entrar com o pedido de recuperação na Justiça, a Fictor Holding já havia destinado pelo menos R$ 1,3 bilhão para offshores, exchanges e empresas satélite da operação central, configurando uma rede de transações de baixa rastreabilidade.


Mas esse cenário não é ignorado na Justiça.


Na decisão de 3 de março, em que estendeu a recuperação a 43 empresas, prorrogando o período de proteção contra execução de dívidas, o juiz Adler Batista Oliveira Nobre, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais, deu um prazo de 15 dias para que as novas participantes do processo apresentem documentação.


E até uma decisão definitiva - ou seja, até pelo menos o dia 18 de março -, nada impede que, diante de provas, novas empresas sejam incluídas no processo.


Offshores

A Justiça mantém no radar outros fundos geridos pela Fictor e a offshore Titan Capital, holding nas Ilhas Cayman ligada a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Nos documentos contábeis da Fictor, a Titan aparece camuflada como Sefer Investimentos, então representante legal do único cotista do FIDC Kripsky e credora de R$ 430 milhões na lista apresentada pela empresa à Justiça.


Por meio de nota, a Sefer nega a condição de credora do Grupo Fictor, conforme refutado judicialmente. “A instituição atua exclusivamente na gestão e administração de recursos de clientes terceiros, não realizando concessão de crédito com recursos próprios”, informa a empresa.


Em outubro de 2025, a Fictor celebrou um contrato de R$ 500 milhões com a Titan Capital para aquisição de direitos creditórios de R$ 1,6 bilhão, correspondentes a mais de um terço do patrimônio do Kripsky à época. Como o pagamento foi parcelado, o que aparece no balancete é supostamente o saldo restante. Nesse documento, o fundo foi registrado apenas como "Fundo de Investimento em Direitos Creditórios", o único não nomeado entre os fundos listados.


O período da celebração do contrato coincide, de acordo com registros, com a primeira leva de pedidos de resgates nas SCPs da Fictor Invest.


Apesar de a Fictor alegar no processo de RJ que a tentativa frustrada de comprar o Banco Master, em novembro, engatilhou a onda de resgates nas SCPs, os documentos contam outra história. Quando não havia notícias de que a empresa faria oferta pelo banco de Vorcaro (liquidado na sequência), ainda em outubro, muitos investidores passaram a pedir resgate de parte de seu dinheiro.


Com prazo de liquidez de 60 dias, em 15 de dezembro apareceram os primeiros relatos do calote da empresa. Até o fim do ano, advogados já lotavam a caixa de entrada da Fictor Invest cobrando os pagamentos com mais de 20 dias de atraso.


Para um especialista ouvido na condição de anonimato, o caso Fictor é mais grave do que o do Banco Master no que tange à recuperabilidade dos valores investidos por esses 13 mil credores pessoas físicas.


“O caso do Banco Master, embora tenha dimensão financeira e política muito maior, trouxe algum alento aos investidores de CDBs pela proteção do FGC [Fundo Garantidor de Créditos]. No caso Fictor, os credores de SCPs têm a proteção apenas do poder judiciário, que não estava entendendo [até então] a necessidade de bloquear os bens dos sócios. Isso gera nessa população a sensação de que não vai recuperar os valores investidos”, diz.


A falta de liquidez da Fictor que levou à RJ pode estar ligada a um padrão de transações financeiras milionárias a terceiros e aos sinais apontados pela perícia judicial em fevereiro de desmantelamento das subsidiárias - já deficitárias.

A contabilidade da holding revela que, dos quase R$ 3 bilhões captados, mais de R$ 900 milhões foram direcionados a CNPJs satélite.


A Enor Pay, uma exchange de tokenização de ativos, aparece nesse circuito numa posição incomum: é, simultaneamente, como credora e devedora de operações que somam mais de R$ 210 milhões.


Fictor Holding reconhece que a Enor Pay lhe deve R$ 180 milhões referentes a gastos feitos no cartão corporativo. Mas o mesmo documento revela um fluxo inverso: uma dívida de R$ 30 milhões da Fictor Holding com a Enor Pay por empréstimo de mútuo.


A reportagem também tentou entrar em contato com Enor Pay, mas não obteve retorno até o fechamento.


Empresas satélite

O laudo pericial da RJ da Fictor ainda atestou a existência de um "caixa único" e de um "fluxo financeiro atípico" - adiante reconhecido em decisão da Justiça. O quadro chamou atenção porque a holding recebia todos os recursos captados pelas subsidiárias e transacionava esses recursos para dentro e fora do grupo, o que oficializou a leitura jurídica de funcionamento do grupo com "caixa único".


No documento de contabilidade da Fictor Holding, a Limex abre o caso das empresas satélite da operação central. São companhias ligadas a ex-executivos, sócios ou ex-sócios que orbitam em torno do grupo, mas escapam ao processo da RJ.


Companhia de comércio exterior ligada a Mauricio Mendes Dutra, membro do conselho de administração da Fictor Alimentos até dezembro de 2025, a Limex recebeu mais de R$ 428 milhões da Fictor Holding em operações de crédito.


Já a Aqwa Capital, holding domiciliada em Delaware (onde as empresas não precisam revelar seu quadro societário), aparece com dívida de R$ 35,5 milhões com a Fictor Holding.


Mas a Fictor Holding e a Aqwa Capital são sócias na Fictor Alimentos. Juntas, lideraram o processo de aquisição da Atom Participações, um movimento de reestruturação societária que mirou a listagem (processo conhecido como "IPO reverso") da Fictor Alimentos na B3, em dezembro de 2024.


Naquele momento, a parte da Aqwa na operação era de 40%, mas, após um aumento de capital liderado pela holding, sua fatia na Fictor Alimentos foi reduzida a menos de 20%.


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